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O tempo e as águas da vida

dema

Inda me lembro vê-lo a transbordar,
o vento levantando as águas e jogando-as contra a orla,
no simultâneo balanço das palmeiras marginais
então sacudidas de sua inércia do meio dia;
o mergulho das aves no artístico pega-pega,
garças e tuiuiús à espera do lanche, numa perna só;
as capivaras na poda da grama de beira
e, no meio das águas, mais vida: cágados, piranhas, pacus;
o arranque veloz dos predadores pra engolir as presas,
e, destas, os extensos voos aéreos de escape;
o sol espelhado na areia prata de fundo,
com reflexos inconfundíveis de gangorra;
o jacaré sonolento na rasura, poleiro do pássaro preto.
Era vida, era vento, era sol, era chuva, era água, era festa.

Mas a roda do tempo escasseou as chuvas,
minguou as águas e, aos poucos, foi drenando a vida:
levou a força dos movimentos, aprisionou o vento;
varreu a juventude, os sonhos, as nuvens,
os amores, as aves, as sereias.
Devagarinho foi secando a esperança,
como se luz opaca de estrelas no claro da manhã.
Lá se vão as águas, vai-se a vida.
O tempo drena-me as águas,
expõe-me ao escaldante sol das três,
racha o solo fundo onde vivera o lago.
O tempo drena-me a vida.

 

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