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Tábula rasa
dema

 

A folha nívea clama presença.
Reluto. Dou tempo a quem teima
em manter ausência, o tema.
Prostituto, pestana queima,
causa dilema:
insistir ou desistir?
Penso o amor, a flor, a presença,
a saudade, o ódio, a indiferença.
Palavras insípidas, opacas, árticas,
xucras, longevas, glaciais antárticas.
Um pote quebra-se na mente
espalhando ideias a correr céleres.
Banham-me e se vão.
Nenhuma semente fecunda
no solo árido do pensamento.
Consome-se a vela à minha frente,
inutilmente. Não me lança uma centelha.
Sou ponto escuro na escuridão,
abelha sem mel, escorpião sem ferrão,
vaso fútil, planta desnuda...
quem me dera a mente de Neruda!
Sou a voz branca, sem timbre algum,
sou ninguém, tão só mais um.
Tamanho brilho no plano-corpo vazio,
por que me olhas tão insistente?
Que queres de mim,
Não vês que a te dar nada tenho?
Ora, meu coração é rocha pura,
nem amor, nem amargura.


 

Tábula rasa, quão me espancas!
Não sou mais que a brisa
a soprar do mar.
Das mãos nenhum rabisco.
Destes olhos nem um cisco
fará lágrima a te sujar.
Se desejas ficar à toa,
por favor, voa!

 

 

 

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